Nos últimos anos, principalmente nas gerações 32 e 128-bits (com PSone, PlayStation 2, GameCube e Xbox), jogos de filmes ganharam a péssima fama de sempre serem ruins. Isso se deve a uma política marketeira nos estúdios que insistia em lançar um jogo baseado no longa-metragem assim que ele entrasse em cartaz nos cinemas, acarretando em prazos curtíssimos para softhouses e produções pobres e mal acabadas.
Todavia, por mais que alguns títulos insistam em manter o estigma, outros se esforçam genuinamente no sentido de acabar com o preconceito adequando-se de maneira extremamente competente à proposta da película. The Chronicles of Narnia: Prince Caspian é um dos melhores exemplos dessa filosofia, configurando-se como uma ótima obra baseada em filme para o Nintendo Wii e opção perfeita para quem se encantou com as batalhas épicas da terra encantada de Nárnia e deseja se aventurar novamente ao lado dos seres fantasiosos que lá habitam.
Neste sentido, o game cumpre o que promete: são cerca de 20 personagens controláveis, incluindo os heróis da parada, vulgo Irmãos Pevensie; faunos; minotauros; soldados; gigantes; centauros e toda sorte de fauna mística do lugar.
Os exércitos de Nárnia
O sistema de jogo é bem simples, apresentando-se como um hack’n slash sem complicações. Resumindo: saia andando pelas fases pegando itens mil que pipocam em todos os cantos e derrotando uma horda ainda maior de bandidos que vem ao seu encalço. Apesar de isso culminar em uma insistente repetição, visto que não há muita variação de estilo de jogo – ainda que vez ou outra o jogo se esforce oferecendo manejo de catapultas ou similares – há de se convir também que facilita imensamente o aprendizado, tornando Prince Caspian acessível mesmo para quem começou a jogar agora.
Cada personagem possui habilidades específicas que ajudam a sobrepujar obstáculos e vencer alguns dos quebra-cabeças que aparecem durante a jornada, sendo que alguns desses poderes podem ser acessados por meio de chacoalhões no Wiimote ou a extensão Nunchuk. Uma certa categoria consegue usar ganchos com corda para alcançar lugares altos, gigantes são fortes o bastante para fechar portões de ferro e destruir imensas catapultas, guerreiros munidos de arco e flecha acertam alavancas e outros alvos distantes. A presença de um modo multiplayer para até duas pessoas torna tudo mais interessante, criando um elemento de cooperação, incentivando jogadores a traçarem juntos estratégias de combate e se ajudarem mutuamente para vencer os desafios.
Além do filme e do livro
Outro ponto bacana é que além de reviver os episódios mais marcantes da película, o jogo inclui uma seqüência inédita até mesmo para quem leu a obra original no livro: falo da batalha da queda de Cair Paravel, o castelo dos habitantes de Narnia que sucumbe ao exército dos telmarinos, narrada apenas como um evento de tempos distantes na história principal. Tipo de elemento que acaba atraindo a atenção mesmo de quem não é muito fã de videogames, nem que seja pela curiosidade.
Por fim, reafirmando a competência que tanto alardeio aqui, Prince Caspian faz a lição de casa de um jogo de filme oferecendo uma série de extras. Isso inclui clipes tirados diretamente do filme (com legendas apenas em inglês, infelizmente), artes conceituais e uma série de minigames rápidos e superficiais que incentivam aquela jogadinha a mais enquanto trazem também um bocadinho extra de variedade.
O visual no console da Nintendo é um dos aspectos mais impressionantes, apresentando modelos detalhados, construções suntuosas e tudo rodando a uma taxa de frames fluida, saudável e constante. Fica patente certa simplicidade em alguns pontos específicos – como a repetição de visual dos inimigos e algumas texturas borradas e paupérrimas – mas isso é justificado pela presença de dezenas e dezenas de elementos em tela movendo-se simultaneamente. Fosse nos consoles de alta definição (Xbox 360 e PlayStation 3) seria algo trivial, mas no pequenino da Nintendo impressiona bastante, provando que o branquinho tem muita lenha para queimar mesmo em termos de hardware e poderio gráfico. Pena que o departamento sonoro não ostente o mesmo fôlego, animando pelo uso das canções épicas do filme, mas com um trabalho de dublagem simples – nada que comprometa a diversão na prática.
Divertido sem ser épico
Games de filmes não precisam ser verdadeiras obras-primas da cultura pop e mídia interativa – mesmo que suas contrapartes nas telonas o sejam – mas podem muito bem jogar seguro, apostar em uma produção humilde e ainda assim serem verdadeiros êxitos como prova The Chronicles of Narnia: Prince Caspian.
O título cumpre de maneira consciente e eficaz aquilo que promete, oferecendo um jogo divertido, simples e fácil de aprender. O visual é uma grata surpresa e torna a experiência agradável enquanto os extras asseguram certa longevidade.