A Segunda Guerra Mundial é o cenário mais visitado pelos videogames, principalmente pelo gênero de tiro em primeira pessoa. Em meio ao verdadeiro exército de jogos que abusam dos clichês patrióticos com listras e estrelas, alguns poucos se destacam a ponto de valer uma nova visita ao teatro de guerra da Europa. A franquia da Gearbox, Brothers in Arms, é um desses destaques.
A série tem como principais diferenciais a história bem desenvolvida e a jogabilidade tática, na qual você não atua como um "Rambo" e sim dá ordens e direciona sua tropa pelo campo de batalha. Nesses dois aspectos, Hell’s Highway continua excelente. Dizer que o jogo captura o clima de filmes e seriados de guerra como "O Resgate do Soldado Ryam" e "Band of Brothers" é chover no molhado, mas não há como negar a influência dessas obras sobre o enredo e o estilo de Brothers in Arms. E isso não é, de forma alguma, um aspecto negativo.
A história do jogo é concentrada na Operação Market Garden. Trata-se de uma grande investida das Forças Aliadas sobre a Holanda, na qual milhares de para-quedistas, entre eles você, no papel do veterano Sargento Matt Baker, deveriam capturar as pontes que cruzavam o país, criando assim uma estrada para as tropas de infantaria chegarem até a Alemanha. Os soldados encontraram uma forte resistência do exército Nazista e o que parecia uma tarefa fácil se torna o verdadeiro inferno do subtítulo do jogo.
O jogo dá continuidade aos acontecimentos dos Brothers in Arms anteriores e a Gearbox tomou o cuidado de refletir isso no desenvolvimento do Sargento Baker, mas não ter jogado nenhum deles não é empecilho para aproveitar essa nova batalha. Após algum tempo de aprendizado, você estará apto a comandar suas tropas e lutar contra os Nazista pelos campos da Holanda. Falando nisso, são três tipos diferentes de equipes sob suas ordens: O Assalt Team é ágil e é eficiente para flanquear os oponentes, eliminando-os. Para isso é preciso suprimir os atacantes, seja com bastante poder de fogo de um Fire Team - equipados com grandes metralhadoras - ou explodindo suas trincheiras com o Bazooka Team. Organizar os ataques, flanquear os inimigos e não ficar cercado por eles é o cerne da jogabilidade em Hell’s Highway, como é em toda a franquia Brothers in Arms e é preciso admitir, ainda é muito desafiador. As batalhas podem ser analisadas num mapa através do qual você consegue definir as melhores posições, mas toda a ação rola em tempo real e uma ordem errada pode resultar em baixas enquanto seus soldados procuram abrigo.
Os times são razoavelmente inteligentes nesse aspecto, tomando decisões mais apropriadas caso você sugira alguma ordem suicida. Alguns até chamam a sua atenção caso você não esteja indo muito bem. Uma parte que foge do realismo do cenário e diminui o impacto dramático é que ao final de uma batalha, os soldados caídos voltam à vida. É algo normal em videogames, mas quando vi pela primeira vez que isso acontecia, me decepcionei um pouco, pois a trama de Hell’s Highway dá muito valor aos personagens do pelotão e isso diminui a ligação entre o jogador e a tropa sob seu comando.
Há também fases em que você se separa do grupo e percorre algum cenário sozinho. O jogo se torna bem mais parecido com um FPS convencional e o combate é bem mais "de perto" do que em outros momentos. É nessas fases que os defeitos de Hell’s Highway se destacam: diversas vezes você vai ver soldados inimigos imóveis em algum canto, enquanto você se aproxima. O soldado fica impassível, esperando que você chegue ao ponto onde um gatilho irá ativar a animação. Os modelos dos soldados também são simples demais, quando comparados a outros jogos da atual geração de consoles. Há também algumas falhas visuais estranhas, como armas que apontam numa direção e atiram em outra. São pequenos defeitos que não afetam tanto a jogabilidade mas que mereciam um cuidado maior dos desenvolvedores.
Graficamente o jogo apresenta alguns momentos sensacionais, principalmente o efeito de zoom que acompanha a bala em alguns tiros, finalizando com crânios explodindo e sangue espirrando em câmera lenta. Há versõs similares desse efeito com outras armas e assistir o estrago causado pela bazuca em um grupo de soldados é algo incrível. Por outro lado, o jogo sofre com algumas texturas medianas e muitos problemas de colisão, quando um objeto entra dentro de outro. É uma pena em um jogo de ação tática, pois esses defeitos acabam por desviar a atenção e diminuir o envolvimento com o que acontece na tela. O mesmo não se pode dizer da trilha sonora: Hell’s Highway tem um acabamento musical primoroso em trechos importantes da história, as falas dos soldados são bem produzidas assim como o trabalho dos dubladores. No que concerne ao som, Brothers in Arms: Hell’s Highway é um projeto muito bem conduzido e o resultado é excelente.
Para os fãs de jogos de tiro que buscam algo diferente do mata-mata usual, Brothers in Arms: Hell’s Highway oferece uma excelente história combinada com ação tática inteligente. Mesmo com um acabamento gráfico que deixa a desejar, de uma forma geral é um jogo de boa qualidade, capaz de prender sua atenção e desafiar suas habilidades não só na pontaria, mas também no comando de um pelotão em plena 2ª Guerra Mundial.