A série Fallout retorna após um hiato de 10 anos, agora pelas mãos da Bethesda. Criar uma continuação para uma das franquias mais queridas entre os jogadores hardcore, ainda mais quando os episódios anteriores estão cercados pela nostalgia, que sempre melhora a impressão que está gravada na memória, não é tarefa fácil. Felizmente, a Bethesda estava à altura da missão e nos presenteia hoje com Fallout 3, um dos melhores jogos desse final de ano tão rico em lançamentos de alta qualidade.
Dias de um futuro distópico
A ambientação de Fallout 3 não é apenas o futuro dos EUA após uma guerra nuclear. É uma versão apocalíptica do futuro imaginado nos anos 50, quando as bombas cairam. Rôbos e carros nucleares de design retrô convivem com computadores simplórios, baratas gigantes e mutantes assassinos. Nas Vaults, abrigos nucleares lacrados na década de 50, comunidades seguem suas vidas tentando evitar o mundo exterior. O que há lá fora é uma versão mais perigosa de Mad Max, aonde sobreviver ao dia-a-dia na superfície é uma tarefa árdua.
E você é apresentado a esse mundo em primeira mão, conforme vai descobrindo a paródia de civilização que se esconde entre os destroços de Capital Wasteland, a cidade que um dia foi Washington DC, capital dos Estados Unidos e enfrentando as ameaças que espreitam em cada esquina e túnel de metrô.
Seja você, mesmo que seja bizarro
A criação e desenvolvimento do personagem em Fallout 3 começa no nascimento e passa pela infância e adolescência do protagonista. Você define o sexo, o nome e a aparência. Um detalhe interessante é que o pai do seu personagem será parecido com o que você escolher, com algumas diferenças. Na infância você distribuirá os pontos de seus atributos, conhecerá os outros habitantes da Vault 101, o abrigo no qual você vive. Na adolescência você enfrentará o engraçado GOAT, um teste vocacional no qual vai distribuir as habilidades iniciais do personagem e algum tempo depois, a história o levará a fugir da Vault 101. A evolução do seu herói se dá por níveis de experiência e envolve uma mecânica simples, mas que exige um bom grau de atenção na distribuição dos pontos e na escolha dos Perks, vantagens que modificam atributos ou conscedem características especiais e bônus ao personagem.
Bem vindo ao mundo real
Dexar o espaço confinado, quase claustrofóbico, da Vault 101 e encarar o mundo aberto pela primeira vez é uma daquelas experiências difíceis de descrever. A vastidão das Wastelands, a luz do sol e a sensação de estar diante de um mundo novo se combinam em um sentimento misto de surpresa, desorientação, apreensão e satsfação. Liberdade.
Assim como em Oblivion, tudo o que você vê pode ser alcançado e Washington é um cenário enorme, cheio de surpresas e detalhes arquitetônicos, mesmo após um bombardeio nuclear. A atenção da Bethesda com os detalhes é perceptível em cada comunidade, seja na desértica Big Town ou na exótica Megaton ou mesmo nos ambientes destruídos. Os esqueletos e objetos contam a história de cada casa, sem uma única palavra.
Fallout 3 possui diversos tipos de perigos: as gangues de Raiders e Slavers, os Super Mutantes e os horrendos Feral Ghouls. Mesmo os cães e outras criaturas como baratas e ratos mutantes são predadores a serem temidos nas Wastelands. E outras criaturas ainda maiores se escondem na escuridão. Mas se há algo em que Falout 3 se diferencia dos demais jogos atuais, é na ameaça constante do próprio cenário.
Em um mundo em que os recursos são limitados, as armas se quebram e a munição se esgota, a própria água e a comida são venenosas, devido à radiação. Sobreviver em Fallout 3 é uma arte. Coletar todo tipo de tralha como xicarás, copos, peças de moto e bugigangas diversas, trocá-las por tampinhas de garrafa, a moeda corrente é o básico. Em pouco tempo você estará comendo os ratos que matar, ou mesmo cadáveres. Pegará as armas dos mortos ou roubará de seus aliados, tudo para estar pronto para o que vier pela frente. Ainda bem que não estará sozinho: seu companheiro Dogmeat, um esperto (e feio) cachorro ajuda a encontrar armas, comida e aponta inimigos.
Nem só de carne de rato e água envenenada é composta a dieta nesse futuro apocalíptico: há diversos tipos de comida e bebidas, como cerveja, vinho ou uísque, além da clássica Nuke Cola. Alguns desses itens acrescentam modificadores temporários aos atributos. Outros, como os comprimidos Jets, deixam o personagem poderoso mas doses repetidas levam ao vício.. e quando o personagem viciado não está sob efeito delas, seus atributos despencam. Desintoxicar-se é caro então fica o conselho: não use drogas!
O jogo conta com uma trilha sonora interessante, combinando faixas orquestradas para cenas dramáticas com músicas dos anos 50 transmitidas pelas duas rádios cujo sinal é captado em Washington. A Bethesda realizou uma bela pesquisa histórica para encontrar músicas de época e cujas letras se encaixam no clima de Fallout. Mas poderiam ter variado um pouco mais nos gêneros musicais. Ainda bem que o rádio pode ser desligado a qualquer momento, senão a trilha se tornaria enjoativa.
Pip-Boy 3000, Karma e o sistema VATS
Tudo o que envolve gerenciar o personagem em Fallout 3 é feito por meio do Pip-Boy 3000, uma peça que fica presa ao braço do herói e faz as vezes de lanterna e GPS. Nele é possível aplicar medicamentos, trocar de arma, verificar o andamento das missões, trocar de rádio, enfim, é um menu de acesso rápido e fácil.
No Pip-Boy 3000 você verifica também o seu Karma, que é o resultado das suas ações: roubar, matar "inocentes" e mentir são más ações. Ajudar mendigos sedentos e fazer o "bem" melhoram seu Karma. Suas escolhas tem grande impacto no jogo: se você é bom demais, pessoas ruins vão persegui-lo e outras lhe darão descontos. Se você rouba o médico e é pego no ato, ele atacará você. Mate o dono da lojinha e quando voltar à cidade os amigos dele estarão esperando.
O sistema de combate de Fallout 3 é regido pelos Action Points, que são gastos para acertar partes específicas dos oponentes. O jogo é pausado e você pode mirar nos braços, pernas, na arma, torso ou cabeça. O sistema VATS (Vault Tech Assisted Targeting) apresenta as chances de acerto que mudam conforme a distância, cobertura e tamanho do alvo. Enquanto você tiver Action Points, pode atacar e tentar desmembrar ou explodir os miolos do inimigo. É fácil de usar e depois que você aprende as minúcias do combate, é excelente. A câmera muda de ângulo para mostrar os acertos críticos, o que torna as batalhas mais emocionantes. Seguir o míssil até explodir a barriga do super-mutante é lindo, de uma forma grotesca.
O único problema é quando você está sem esses preciosos pontos. Eles recarregam automaticamente, mas isso leva algum tempo durante o qual o combate é todo manual e nesse momento ele lembra muito Oblivion: simples e pouco preciso.
Outro defeito de Fallout 3, talvez o maior, são as pessoas. Elas possuem personalidade própria, os NPCs contém várias linhas de diálogos, algumas das quais surgem conforme a sua habilidade em Speech e o seu Carisma. Não se repetem com tanta facilidade quanto em outros jogos e em comparação à Oblivion, a Bethesda conseguiu criar rostos e expressões faciais muito mais realistas. O mesmo não se pode dizer, infelizmente, da movimentação. Basta ver uma pessoa andando para lembrar-se que Fallout 3 é apenas um jogo. Um detalhe pequeno, mas que prejudica uma das experiências mais imersivas já produzidas.
"Vai acabar com sua vida social"
Jogar Fallout 3 é ir na contramão das têndencias atuais dos jogos eletrônicos. Não é simples, nem fácil e nem curto. É um game com 200 finais. Um autêntico RPG hardcore, nos moldes da criação anterior da Bethesda, The Elder Scrolls IV: Oblivion. Se o que você busca é uma experiência de imersão total, no melhor sentido do clichê "vai acabar com a sua vida social", então aquilo que você procura é Fallout 3. Se tranque num abrigo nuclear e prepare-se paraexplorar as imensas e perigosas Wastelands.